Muitas pessoas me fazem esta pergunta — quase sempre com curiosidade e um certo espanto. E eu entendo: do lado de fora, parece magia. Do lado de dentro, é também estratégia, insistência e um tipo de loucura organizada.
Nos últimos anos, a cultura voltou a respirar com mais força a partir dos investimentos federais — e isso movimenta a cena brasileira de forma real. O que é excelente. Ao mesmo tempo, tenho observado estados e municípios a investirem aquém do necessário em cultura e, em alguns casos, toda a “propaganda cultural” local apoia-se quase exclusivamente nos recursos repassados pela União. É um tema que merece transparência, debate público e compromisso continuado.
Mas vamos ao que está a funcionar hoje, na prática: os editais.
Como a nossa subsistência vem de apresentações e ações culturais, tenho-me envolvido cada vez mais neste sistema. Para quem não vive disto, um exemplo ajuda a entender o tamanho do funil:
No Premio Funarte Mestras e Mestres das Artes 2025, segundo a própria Funarte, houve 1.390 propostas e, após suplementação orçamental, serão distribuídos 50 prêmios no país. Isso significa que apenas cerca de 3,6% das candidaturas serão contempladas — aproximadamente 1 pessoa premiada a cada 28 inscritas. Reitero que o prêmio é valioso e necessário.
Em breve veremos uma linda divulgação com as pessoas selecionadas — mais do que merecido, para que conste. Mas é preciso olhar também para o outro lado do número: mais de 1.300 candidaturas ficarão de fora. E não porque sejam fracas. Ainda assim, muitas pessoas mestras seguem sem qualquer reconhecimento público ou condições materiais mínimas. O que falta é continuidade, orçamento e política de Estado.
Hoje, estou ativamente, junto com Denise Di Santos, Hermes Perdigão, Andreisson Quintela, Conceição Rosiére e Nelson Haas, na diretoria da ABTB – Associação Brasileira de Teatro de Bonecos. A nossa luta passa também pelo reconhecimento da profissão. Olha que contradição: o teatro de bonecos popular é reconhecido pelo IPHAN como Património Cultural Brasileiro, mas as pessoas mestras não podem aposentar-se como bonequeiras, porque a profissão ainda não existe formalmente. Isso precisa ser debatido com políticas de trabalho e previdência cultural.
Então voltamos à pergunta inicial:
Viver de teatro de bonecos… como é?
É meio louco.
Porque, além de artistas, tornamo-nos também empresa: precisamos de comunicação, acessibilidade, redes sociais, registos de foto/vídeo, produção, contabilidade, relatórios — e muitos cursos. Cursos para escrever melhor. Cursos para entender o sistema. Cursos para não errar. Cursos para continuar. O problema é quando a burocracia e a lógica empresarial engolem o tempo de criação.
E o artista?
Porque a arte insiste — e a gente insiste com ela.
E termino com o olhar que sustenta o meu:
“Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo.Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer,porque eu sou do tamanho do que vejoe não do tamanho da minha altura.”— Fernando Pessoa
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