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“Viver de teatro de bonecos… como é?”

Muitas pessoas me fazem esta pergunta — quase sempre com curiosidade e um certo espanto. E eu entendo: do lado de fora, parece magia. Do lado de dentro, é também estratégia, insistência e um tipo de loucura organizada.

Entrei neste mundo do teatro de bonecos em 2004, definitivamente. Aprendi na prática, no fazer diário, no erro e na insistência. Os meus primeiros mestres foram muitos e diversos: na direção, Julio Saraiva; na poesia, José dos Rios; na construção, Mario Palermo e Pepe Grigera. E, pelo caminho, vieram tantas Efigênias, Cecílias, Miguéis, Leonores, Julietas, Cheirosos…
Foi assim que me construí bonequeira de luva. Entendo outras linguagens e técnicas, mas é a luva — aqui também chamada de fantoche — que amo fazer. É onde o corpo, a palavra e o gesto se encontram com verdade.

Nos últimos anos, a cultura voltou a respirar com mais força a partir dos investimentos federais — e isso movimenta a cena brasileira de forma real. O que é excelente. Ao mesmo tempo, tenho observado estados e municípios a investirem aquém do necessário em cultura e, em alguns casos, toda a “propaganda cultural” local apoia-se quase exclusivamente nos recursos repassados pela União. É um tema que merece transparência, debate público e compromisso continuado.

Mas vamos ao que está a funcionar hoje, na prática: os editais.

Como a nossa subsistência vem de apresentações e ações culturais, tenho-me envolvido cada vez mais neste sistema. Para quem não vive disto, um exemplo ajuda a entender o tamanho do funil:

No Premio Funarte Mestras e Mestres das Artes 2025, segundo a própria Funarte, houve 1.390 propostas e, após suplementação orçamental, serão distribuídos 50 prêmios no país. Isso significa que apenas cerca de 3,6% das candidaturas serão contempladas — aproximadamente 1 pessoa premiada a cada 28 inscritas. Reitero que o prêmio é valioso e necessário.

É aqui que a pergunta volta, agora com outro peso: onde os estados e municípios garantem, de forma efetiva, a salvaguarda das pessoas mestras dos seus territórios?

Em breve veremos uma linda divulgação com as pessoas selecionadas — mais do que merecido, para que conste. Mas é preciso olhar também para o outro lado do número: mais de 1.300 candidaturas ficarão de fora. E não porque sejam fracas. Ainda assim, muitas pessoas mestras seguem sem qualquer reconhecimento público ou condições materiais mínimas. O que falta é continuidade, orçamento e política de Estado.

Hoje, estou ativamente, junto com Denise Di Santos, Hermes Perdigão, Andreisson Quintela, Conceição Rosiére e Nelson Haas, na diretoria da ABTB – Associação Brasileira de Teatro de Bonecos. A nossa luta passa também pelo reconhecimento da profissão. Olha que contradição: o teatro de bonecos popular é reconhecido pelo IPHAN como Património Cultural Brasileiro, mas as pessoas mestras não podem aposentar-se como bonequeiras, porque a profissão ainda não existe formalmente. Isso precisa ser debatido com políticas de trabalho e previdência cultural.

Então voltamos à pergunta inicial:

Viver de teatro de bonecos… como é?

É meio louco.

Porque, além de artistas, tornamo-nos também empresa: precisamos de comunicação, acessibilidade, redes sociais, registos de foto/vídeo, produção, contabilidade, relatórios — e muitos cursos. Cursos para escrever melhor. Cursos para entender o sistema. Cursos para não errar. Cursos para continuar. O problema é quando a burocracia e a lógica empresarial engolem o tempo de criação.

E o artista?

Bem… entre um edital e outro, entre uma prestação de contas e outra, entre um curso e outro…
a gente arTeia.

Porque a arte insiste — e a gente insiste com ela.

E termino com o olhar que sustenta o meu:

“Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo.
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer,
porque eu sou do tamanho do que vejo
e não do tamanho da minha altura.”
Fernando Pessoa



 

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